Psilídeos em Olerícolas no Brasil

Taciana Melissa de Azevedo Kuhn, João Roberto Spotti Lopes

Os psilídeos (Hemiptera: Psylloidea) são insetos sugadores de floema que se destacam por serem vetores de bactérias associadas a doenças emergentes em várias culturas agrícolas. Um exemplo de bactéria transmitida por estes insetos é ‘Candidatus Liberibacter solanacearum’ (CaLso), agente causal da doença conhecida por “Zebra chip”, que afeta principalmente as culturas da batata e do tomate na América do Norte e Central e também na Nova Zelândia, e a cultura da cenoura na Europa e África. A doença “Zebra chip” tem causado perdas de até 100% em alguns plantios de batata nos Estados Unidos da América. As perdas ocorrem por morte das plantas, diminuição da produção e/ou por depreciação do produto, uma vez que as batatas ficam manchadas em seu interior, “zebradas”, e não são aceitas pelo consumidor.
No Brasil, ainda não há registros de CaLso nem dos psilídeos já conhecidos como vetores desta bactéria. Embora o grupo de insetos ao qual psilídeos fazem parte seja bastante diversificado, apenas 89 espécies já foram identificadas no Brasil, sendo a maioria delas em cultivos florestais, havendo poucas informações sobre psilídeos em olerícolas.
Considerando a necessidade de identificar espécies de psilídeos vetores ou potenciais vetores de CaLso em cultivos olerícolas no Brasil e de conhecer suas interações com plantas que podem ser hospedeiras da bactéria ou desses insetos, foi desenvolvido um trabalho em conjunto entre pesquisadores da Esalq/USP, IAC, Embrapa Florestas, Natural History Museum Basel (Suiça) e ICA/CSIC (Espanha). Os artigos decorrentes deste trabalho ainda estão sendo escritos, porém as primeiras informações sobre parte dos resultados obtidos já podem ser consultados através da tese de doutorado intitulada “Psilídeos (Hemiptera: Psylloidea) associados a olerícolas e estudo das interações com suas plantas hospedeiras”, defendida em março deste ano na Esalq/USP.
Em relação a diversidade de espécies de psilídeos associados a cultivos de olerícolas na região Centro-Sul do Brasil, foram amostradas 109 áreas de olerícolas (batata, cenoura, tomate, pimentão, jiló, pimenta biquinho, repolho, fumo, salsinha, aipo e berinjela, além de daninhas ao redor do cultivo) em seis estados brasileiros (Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Minas Gerais e Goiás). Neste levantamento, realizado com métodos diretos e indiretos de coleta, foram encontrados 2.813 exemplares de psilídeos. Não foram detectadas as espécies já conhecidas como vetoras da bactéria (Bactericera cockerelli, Bactericera trigonica e Trioza apicalis). As espécies de psilídeos Russelliana solanicola, Russelliana capsici e Isogonoceraia divergipennis foram encontradas com maior frequência em cenoura, pimenta biquinho e batata, respectivamente. Observaram-se imaturos de R. capsici em pimenta biquinho, bode e malagueta, e de R. solanicola em cenoura e na planta espontânea losna-branca (Parthenium hysterophorus).
Por terem sido observados imaturos em olerícolas, R. capsici e R. solanicola foram selecionadas para a etapa de teste de preferência hospedeira, sobrevivência e desenvolvimento em diferentes espécies vegetais que poderiam atuar como hospedeiras de CaLso ou desses possíveis vetores. Em ensaios com chance de escolha, houve preferência para pouso e oviposição de R. solanicola em cenoura e losna-branca, e de R. capsici em pimenta biquinho, falso joá-de-capote e maria-pretinha. Observou-se desenvolvimento completo (ovo-adulto) de R. solanicola em cenoura, batata, falso joá-de-capote, losna-branca, e picão-preto, enquanto que R. capsici mostrou especificidade hospedeira, desenvolvendo-se apenas em pimentão e pimenta.
Por fim, foi realizado um estudo do comportamento alimentar da espécie R. solanicola em diferentes plantas (tomate, cenoura, pimentão e losna-branca) através da técnica Electrical Penetration Graph (EPG). O estudo de EPG mostrou que imaturos e adultos de R. solanicola se alimentam no floema de plantas hospedeiras (cenoura e losna-branca) como também de não hospedeiras (pimentão e tomate). Esta alimentação no floema é importante, pois é onde CaLso se encontra na planta, e portanto, torna o inseto um potencial vetor caso um dia tenhamos a entrada desta bactéria no país.
Os estudos demonstraram uma íntima associação de R. solanicola e R. capsici com cultivos de olerícolas e seus potenciais como vetores de CaLso em caso de introdução deste patógeno no Brasil. A ampla gama de hospedeiros de R. solanicola e a possibilidade de se alimentar de plantas de batata (hospedeiro já conhecido) e de cenoura (nova planta detectada como hospedeira) fazem com que esta espécie seja mais preocupante em relação ao potencial de transmissão.
A participação dos produtores, cooperativas e da Associação Brasileira da Batata foi muito importante durante o desenvolvimento destes estudos, e por isso os pesquisadores agradecem por todo auxílio. Os trabalhos de levantamento e detecção da bactéria e de psilídeos devem continuar sendo realizados, e caso algum material vegetal suspeito ou psilídeo desconhecido seja detectado em áreas de produção de batata e outras olerícolas, o contato pode ser realizado com o pesquisador principal João Roberto Spotti Lopes (jrslopes@usp.br) da Esalq/USP.

Foto 1. Adulto de Russelliana capsici

Foto 2. Adulto de Russelliana solanicola

Foto 3. Imaturos de Russelliana solanicola

Foto 4. Coleta de Psilídeos em Área de Batata

 

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