Mofo Branco na Batata

 

O mofo branco (Sclerotinia sclerotiorum) possui importância mundial, pois infecta grande parte das plantas de interesse comercial, sendo que no Brasil o primeiro registro de ocorrência do patógeno foi registrado na cultura da batata (Solanum tuberosum L.) em 1921 no Estado de São Paulo. O patógeno além de afetar as principais culturas presentes à campo também tem como hospedeiras plantas daninhas. Dessa formaa permanência do fungo na área é favorecida e consecutivamente seu controle se torna mais difícil (Schwartz & Steadman, 1989).

O fungo ocorre preferencialmente em áreas com alta umidade e temperaturas amenas, apresentando maior frequência em regiões tropicais com altitude elevada, regiões subtropicais e zonas de clima temperado (Tofoli et al., 2012). No país, a doença encontra-se disseminada em áreas do sul, sudeste, centro-oeste e nordeste (Juliatti & Juliatti, 2010).

 

Agente Etiológico

 O fungo S. sclerotiorum é um patógeno necrotrófico, consegue obter alimento de resto de cultura, não necessitando de haver planta hospedeira para sobreviver. O patógeno possui estrutura de resistência denominadas escleródios, os quais possuem diâmetro de aproximadamente 2 mm, são rígidos, inicialmente de coloração branca e tornam-se marrons (Figura 1).

Figura 1. Escleródios de Sclerotinia sclerotiorum. Fonte: Apostila Didática Online – UFT

Para que possam ser disseminados de forma fácil e efetiva mantêm-se dentro e na superfície dos tecidos das plantas hospedeiras, retornando ao solo com os restos da cultura. Com alta capacidade de sobrevivência na ausência de seus hospedeiros e por possuir diferentes e complexos mecanismos de infecção, esse patógeno é considerado uma das mais sérias ameaças ao sistema de produtivo de mais de 500 espécies, podendo permanecer no solo por um período de 6 a 8 anos. Em situações de alta umidade, temperaturas entre 21 a 25 °C e na presença de um hospedeiro suscetível, ocorre a germinação do escleródio, o qual penetra diretamente nos tecidos da base da planta em forma de micélios. Devido ao seu crescimento inicial na superfície do solo a colonização das folhas hospedeira se inicia nas folhas senescentes próximas ao solo, para posteriormente a colonização dos tecidos sadios, caracterizando assim a germinação miceliogênica, por micélio do fungo. Já em condições de temperaturas amenas, entre 11 a 20 ºC ocorre germinação carpogênica, em que o escleródio forma os apotécios (Figura 2), que emergem na superfície do solo e liberam os ascósporos, os quais infectam as plantas hospedeiras em fase suscetível, preferencialmente na fase de florescimento (Leite, 2005; Machado & Pozza, 2005; Tofoli, 2012).

Figura 2. Escleródios de Sclerotinia sclerotiorum apresentando germinação carpogênica, formando apotécios. Fonte: Apostila Didática Online – UFT

Com o avanço da doença, observa-se a formação dos escleródios. Os escleródios têm coloração externa preta e são formados a partir do emaranhado de hifas que se aglomeram e formam estruturas firmes e densas, geralmente arredondadas ou alongadas, produzidos tanto externa quanto internamente nas hastes das plantas afetadas.

Além da temperatura e umidade outros fatores também influenciam a germinação dos escleródios, sendo que as características do solo têm alta influência sobre o fungo, pois o pH e o tipo de solo afetam a germinação tanto quanto a luminosidade, idade dos escleródios aeração e a profundidade na qual o escleródio se encontra (Willets & Wong, 1980; Phillips, 1987).

 

Sintomatologia e Epidemiologia

O início da infecção ocorre preferencialmente na fase final da cultura, pois a ocorrência de pétalas e flores senescentes funcionam como mecanismos de ativação para infecção da planta. Dessa forma os tecidos atacados são colonizados permitindo que a infecção se espalhe para todos os tecidos da planta, ocorrendo uma extensão da necrose nos tecidos saudáveis. Com isso a planta pode apodrecer e morrer transmitindo o fungo para os tubérculos e frutos (Reis et al., 2007).

Os sintomas causados por S. sclerotiorum ocorrem principalmente nas folhas e nas hastes. As lesões que ocorrem nas hastes ocasionam a murcha das plantas, tombamento, escurecimento da região do colo da planta, a medula da planta é destruída, sendo preenchida por micélios e escleródios, os quais são os responsáveis pela disseminação da doença. Sobre as partes afetadas um micélio branco de aspecto cotonoso se desenvolve, próximo à superfície do solo (Instituto Biológico, 2012).

Em condições normais o mofo branco não é uma doença de grande importância para a cultura da batata, porém quando as condições estão favoráveis pode causar danos severos à cultura. Para que isso ocorra o local de plantio deve possuir o inóculo da doença, alta umidade (entre 95 a 100%), e temperaturas entre 16 a 20 °C. Quando infectada a planta apresenta os maiores danos nas hastes, as lesões causadas pelo fungo são recobertas por micélios e escleródios, com sintomas evidentes na haste principal próximo ao solo. O desenvolvimento do patógeno é rápido causando anelamento e posterior murcha da planta (Souza-Dias & Iamauti, 1997).

 

Perdas causadas por mofo branco

 As perdas causadas nas áreas de produção pelo mofo branco são muito severas, pois existem os custos com aplicações de fungicidas para o controle do patógeno o qual é pouco efetivo devido ao bloqueio que o dossel da planta faz impedindo com que o produto chegue em sua totalidade no centro da infecção, o qual está localizado próximo as raízes. Além do custo do dano direto que ocorre nas plantas reduzindo consideravelmente as plantas presentes na área, a área se tornará inviável para produção de plantas hospedeiras do fungo. Saharan (2008) cita em seu trabalho que as perdas podem chegar até 100% em condições de alta severidade.

 

Controle

 Controle Cultural

 A principal alternativa para o manejo do mofo branco com o controle cultural é a rotação de culturas com espécies não hospedeiras. Dentre elas existem muitas espécies de interesse econômico, pois o patógeno não ataca poaceas, as principais opções para a rotação é a utilização de milho no verão e trigo no inverno. A área afetada deve ser mantida sem plantas hospedeiras por um longo período para que a pressão do inóculo na área seja reduzida, sendo recomendado que este período seja de aproximadamente 4 anos.

Medidas básicas de sanidade devem ser sempre levadas em consideração ao implantar uma cultura, verificar o histórico da área é fundamental para que se determine qual cultura implantar e qual o manejo adequado para a área. Os tubérculos destinados ao plantio devem estar livres do patógeno, a irrigação deve ser controlada com o objetivo de não ocorrer excesso de umidade e para que não sejam realizadas irrigações em horários que favoreçam o patógeno, e a escolha se variedades de batata mais eretas que permitam maior aeração no fechamento da cultura (Reis et al., 2007).

 

Controle Biológico

Um método que vem se destacando no manejo do mofo branco é o controle biológico, no qual microrganismos antagônicos são aplicados à campo parasitam e/ou degradam os escleródios. Esses antagonistas estão na forma de bioagentes os quais vem sendo produzidos de forma massal, devido a eficiência no controle que vem apresentando.

Os agentes do controle biológico conseguem inibir a produção de novos escleródios com a ação de enzimas e por meio de parasitismo, pode ocorrer redução significativa do fungo nas áreas (Geraldine et al., 2013). Segundo Geraldine (2013) a utilização em escala comercial do fungo Trichoderma harzianum como parasita de S. sclerotiorum chegou a níveis de controle de aproximadamente 70%. Assim os agentes biológicos tornam-se uma alternativa viável para diminuir a pressão do inóculo de mofo branco, sendo uma alternativa de manejo da doença (Mello et al., 2007).

Figura 3. Escleródios de Sclerotinia sclerotiorum parasitados com o agente de controle biológico Trichoderma spp.

Fotos: Maurício C. Meyer

 

Controle Químico

Segundo o site AGROFIT do MAPA (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento) existem 12 produtos liberados no Brasil para o controle de mofo branco na cultura da batata, sendo que 8 desses produtos são da classe das fenilpiridinilaminas e tem como recomendação realizar a primeira aplicação dos 30 aos 40 dias após a germinação e repetir aplicações a cada 7 a 10 dias, devendo utilizar o produto em no máximo 4 aplicações durante o ciclo da cultura. A fenilpiridinilaminas desorganizam a fosforilação oxidativa do fungo inibindo a respiração, ocorrendo uma máxima absorção de oxigênio e sem a produção de ATP (Zambolim & Zambolim, 2008).

Três produtos liberados para o controle do mofo branco encontram-se na classe das dicarboxamidas, para o qual é recomendado 2 aplicações logo aos primeiros sintomas do aparecimento das doenças, com intervalo de 7 dias, gastando-se 1000 litros de calda/ha. As dicarboxamidas atuam na inibição da germinação de esporos, promovendo a ramificação, intumescimento e lise de hifas, inibindo o crescimento micelial dos fungos.

E existe um produto que está na classe das anilidas o qual inibe o crescimento do fungo desprovendo as células do fungo de sua fonte de energia e eliminando a disponibilidade de blocos para a síntese de componentes essenciais da célula.

Porém o sucesso das aplicações está diretamente relacionado com a época de aplicação, a situação que se encontra a doença na área, e o manejo integrado de todas as formas de controle, pois a ação do controle químico é limitada devido à dificuldade de chegar aos locais afetados, pois o dossel da planta já está formado (Reis et al., 2007).

Elis Marina Müller Silva
Leandro Alvarenga Santos
Jackson Kawakami
Cacilda Marcia Duarte Rios Faria
Universidade Estadual do Centro Oeste – UNICENTRO

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