Crinivírus na Cultura da Batata: Uma Ameaça Silenciosa

Dra. Daiana Bampi (Pesquisadora Fapesp)
Pedro Hayashi (Soleil Papa, Tecnologia)

O Tomato chlorosis virus (ToCV), é um vírus transmitido por mosca branca pertencente ao gênero Crinivirus. Esse vírus foi constatado e isolado pela primeira vez em 1998 em tomateiro (Solanum lycopersicum) nos Estados Unidos e atualmente encontra-se disseminado em vários países infectando uma grande diversidade de espécies de plantas. No Brasil o ToCV foi relatado pela primeira vez em 2008 infectando tomateiro no município de Sumaré, SP, posteriormente foi relatado em pimentão (Capsicum annuum), batata (S. tuberosum), berinjela (S. melongena) e jiló (S. gilo).

O ToCV foi reportado pela primeira vez na cultura da batata em 2012, e nos últimos anos (safra 2018/2019) foi constatado alta incidência do ToCV infectando plantas de batata em áreas produtoras do estado de São Paulo, fato
este que tem causado preocupação entre os produtores desta solanácea, principalmente entre aqueles que produzem o insumo tubérculo-semente, uma vez que a perpetuação de vírus na semente pode causar degenerescência dos tubérculos-sementes e a alta disseminação deste patógeno. A ocorrência do vírus em outros estados produtores (Minas Gerais, Goiás e Paraná), também foi relatada.

Estudos da incidência e danos ocasionados por este vírus na cultura da batata precisam ser melhor explorados. Alguns experimentos realizados em casa de vegetação reportaram reduções de rendimento de 14% para a cultivar Atlantic (Pedro Hayashi, dados não publicados), e 56% para a cultivar Asterix (Pinto, 2017), no entanto, é necessário mais estudos com diferentes cultivares em campo para avaliação dos danos ocasionados por esse crinivirus e sua interações com outros fatores, tais como outros patógenos e condições climáticas. Além dos danos ocasionados na redução de produção também pode ser observado redução do crescimento da parte aérea da planta (Figura 1).

Figura 1. Crescimento da parte aérea de plantas de batata cultivar Atlantic, infectada com o ToCV a esquerda e livre de vírus a direita.

A transmissão do ToCV ocorre de maneira semi-persistente através de três espécies de aleyrodídeos: Bemisia tabaci New World1- NW1 (anteriormente biótipo A), Middle East–Asia Minor 1 – MEAM1 (anteriormente biótipoB) e Mediterranean – MED (anteriormente biótipo Q), Trialeurodes abutilonea e T. vaporariorum (WISLER et al., 1998, WINTERMANTEL et al., 2001, ORFANIDOU et al., 2016). No entanto, no Brasil, não há relatos da presença
de T. abitilonea. O período de retenção do vírus no vetor B. tabaci MEAM1 que é a espécie predominante no Brasil é de três dias (WINTERMANTEL & WISLER, 2006). O ToCV não é transmitido mecanicamente ou por meio de
sementes verdadeiras.

Em plantas de batata o ToCV induz sintoma foliar de clorose internerval (Figura 2A), e enrolamento das folhas, especialmente em folhas mais velhas (Figura 2B). Algumas cultivares podem apresentar áreas lesionadas
(Figura 2 B, C). Os sintomas são parecidos com aqueles ocasionados pelo vírus do enrolamento das folhas da batata (Potato leaf roll virus-PLRV). Também podem ser observados reduções da parte aérea.

Figura 2. Sintomas do Tomato chlorosis virus em cultivares de batateira.

A manifestação dos sintomas do ToCV não ocorre no início da infecção. Desta forma, na maioria das vezes o diagnóstico só ocorre tardiamente na lavoura, sendo frequentemente confundido com deficiência mineral (magné- sio) ou senescência natural. Outra característica que difere da maioria das viroses é que em casos de rebrota, as plantas infectadas com o ToCV não apresentam sintomas nas folhas novas.

Em tomateiro foi constatado período médio de latência do vírus de 13 dias e período de incubação de 30 dias, ou seja, a partir de 13 dias após a infecção o vírus pode ser adquirido pelo vetor e transmitido para plantas sadias,
enquanto os sintomas na planta só se manifestam em média 30 dias após a infecção (FAVARA et al., 2019). Desta forma, o vírus pode ser disseminado na lavoura muito antes de manifestar os sintomas. Em batata não há relatos
do período de latência e incubação, no entanto, em lavouras comerciais do estado de SP foram observados sintomas a partir de 60 dias após o plantio.
Na cultura da batata os surtos de ToCV podem estar relacionados com o plantio de batata-semente infectada associado às altas populações de B. tabaci. Quando o ToCV é identificado em uma nova área, há dificuldade
em estabelecer um controle ou erradicação devido a sua ampla gama de hospedeiros e alta eficiência de transmissão pelo vetor. Além disso, o controle do vetor muitas vezes não é eficiente e o vírus pode ser transmitido antes do
efeito da aplicação dos inseticidas.

Desta forma, a utilização de batata semente de alta qualidade e livre de vírus é uma medida importante para manter a sanidade da lavoura e evitar danos na produção. Uma alternativa eficiente para o controle dessa doença seria o uso de variedades resistentes, no entanto, não são conhecidas variedades de batata resistentes ou tolerantes a esse crinivirus.

No sistema de produção de batata semente normatizado pelo MAPA (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento) não obriga a análise laboratorial para o diagnóstico de ToCV, a obrigatoriedade só se aplica aos vírus Potato leafroll virus (PLRV), Potato virus Y (PVY), Potato virus S (PVS) e Potato virus X (PVX). Desta
forma, em vista das dificuldades de diagnóstico visual do ToCV, há forte indícios de que este vírus está presente em unidades de produção de sementes e sendo perpetuado nas lavouras comerciais, causando grande prejuízo nas lavouras que foram utilizadas estas sementes.

Como medida para garantir a sanidade de material básico recomenda-se a análise para diagnóstico do ToCV tanto das mudas de laboratório, quanto para os materiais dentro dos telados. Em casos de infecção em clones provenientes de melhoramento genético, uma medida que pode ser adotada é a termoterapia associada a quimioterapia e extração e cultura de meristema. Essa técnica tem possibilitado a erradicação desse vírus de maneira eficiente.

Diante das dificuldades de controle deste crinivirus, é necessário uma preocupação intensiva por parte dos produtores, principalmente produtores de batata-semente para diagnosticar a presença do vírus e eliminar as plantas infectadas evitando a perpetuação do ToCV no campo e disseminação através do inseto vetor. Importante salientar que, por esse vírus não ser uma praga quarentenária, o diagnóstico não é feito em materiais importados. Desta forma, a compra de batata-semente de outros países não garante a sanidade do produto, mas sim aumenta os riscos da entrada de pragas importantes ainda não relatadas no Brasil.

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