Bataticultura – Termos de troca na pós-desvalorização do Real

Evaristo Marzabal Neves – Prof. Titular do Depto de Economia, Administração e Sociologia – Esalq/USP, emneves@esalq.usp.brLuciano Rodrigues – Graduando em Engenharia Agronômica – Esalq/USP, bolsista Fealq, lurodrig@esalq.usp.br Diogo S. Dragone – Eng. Agrônomo, Pós-graduando em Economia Aplicada- Esalq/USP, dsdragon@esalq.usp.br



 


Em artigos recentes (“Aplicação de fertilizantes na bataticultura: comportamento de preços no Plano Real” e “Bataticultura: dispêndios com defensivos agrícolas no quinquênio 1997-2001”), publicados na edição anterior (Ano 3, nº 6, março 2003), verificou-se a elevada participação desses insumos em volume (fertilizantes) e em gastos (defensivos agrícolas), por unidade de área (hectare) plantada com batata. Para fertilizantes, o estudo mostra, num comparativo com 18 culturas comerciais brasileiras, que a batata é a cultura que mais demanda por fertilizantes/hectare (t/ha), enquanto para os defensivos, a batata vem se posicionando em terceiro lugar nos gastos por hectare (US$/ha) com fungicidas e inseticidas, num comparativo com 14 culturas comerciais. As evidências ficam mais claras quando se decompõem os itens/componentes de planilhas de custo de produção, principalmente os operacionais, onde se constata o elevado peso de fertilizantes e defensivos agrícolas nas despesas com a produção de batata.


Há evidências ainda que, culturas que requerem quantidades significativas de fertilizantes e defensivos agrícolas, tiveram seus custos operacionais aumentados em períodos de desvalorização do Real (R$), face à necessidade de importações de componentes ou ingredientes não produzidos ou disponíveis no Brasil. Nos casos de defensivos e fertilizantes, fortemente dependentes de importações de principio ativo defensivos agrícolas) e de nutrientes e matérias-primas (principalmente, fósforo e potássio nos fertilizantes), a desvalorização cambial acabou alterando o fluxo de custo e a participação relativa dos componentes de custo com a elevação nas despesas advindas com a aquisição de insumos, sem a contraparte do aumento do preço do produto vendido pelo bataticultor, que, em muitos casos, não é dolarizado quando destinado para atender os consumidores do mercado doméstico.



Abrindo um parêntese, é sabido que a desvalorização da moeda eleva os custos de importação de produtos estrangeiros com a pressão de alta de custo da matéria-prima, induzindo o aumento de preços internos. Por sua vez, produtos de exportação, cujas cotações internacionais são dolarizadas, experimentam elevação nos ganhos, em Real, com a maior cotação da moeda americana no mercado doméstico. Neste sentido, produtos agropecuários voltados unicamente para o mercado interno não são favorecidos pela desvalorização da moeda, pois seus preços são internalizados em Real e seus custos absorvem a desvalorização com o aumento no fluxo de custo proveniente da elevação de preços dos insumos que dependem de matéria prima importada, casos de fertilizantes e defensivos agrícolas.
Uma maneira de medir se realmente a desvalorização do Real (R$) provocou alteração no fluxo de caixa do bataticultor, é fazer a comparação temporal através dos termos de troca (preço de paridade), mês a mês, importante instrumento auxiliar na tomada de decisão do produtor.
Na tentativa de captar estas mudanças, principalmente após a forte desvalorização do Real, no início de 1999, tomou-se um horizonte de cinco anos, incluindo para comparação temporal o ano 1998, que antecede à desvalorização cambial.
Os preços mensais recebidos pelos bataticultores foram obtidos junto ao Instituto de Economia Agrícola/Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, bem como os de fertilizantes (no caso o formulado 04-14-08) e de defensivos agrícolas.
Neste caso, face à importância de fungicidas e inseticidas na produção da batata, tomaram-se os preços mensais de um fungicida (no mercado, vendido em caixa de 25kg) e dois inseticidas (no mercado, disponíveis em embalagens de 1 litro e caixas de 10 kg). No caso da batata, tem-se um preço único, não se discriminando o tipo ou variedade.
Preço de paridade (termos de troca) para fertilizante.
A Figura 1 ilustra a relação de troca entre os preços da batata (R$/sc 50kg) e fertilizante (R$/t). No eixo vertical, tem-se a quantidade de sacas (sc) de batata necessária para adquirir uma tonelada de fertilizante no tempo considerado (horizonte de janeiro 1998 a dezembro de 2002, no eixo horizontal).
Verifica-se a inflexão no gráfico a partir da desvalorização do Real (janeiro 1999) exigindo, a partir deste ano, maior Preço de paridade (termos de troca) para fertilizante.
Se, em dezembro de 1998, foram exigidas 12,72 sacas para adquirir uma tonelada de adubo, esta relação passa para 21,36 sacas em fevereiro 1999, permanecendo acima de 22 sacas ao longo deste ano. Em termos nominais, a tonelada de fertilizante salta de R$ 270,34 (dezembro de 1998) para R$ 347,15 (fevereiro de 1999), quase R$ 80,00 a mais em apenas dois meses. Neste período, a melhor relação para o bataticultor foi antes da desvalorização do Real (abril de 1998 com 8,81 sc), sendo que, entre março a junho de 1998, não se passou de 10 sc. Convém registrar que após a desvalorização cambial, a partir de janeiro de 1999, somente em um período (setembro de 2000 a junho de 2001), esta relação se mostrou favorável ao bataticultor, sendo necessárias menos de 10 sc para adquirir uma tonelada de adubo.
É importante frisar que a relação de troca é afetada pela sazonalidade de produção, uma vez que em período de safra, com a colheita abundante, a variabilidade e oscilações de preço são evidentes, sofrendo pressões baixistas devido a maior oferta do produto agrícola, o mesmo não ocorrendo com os preços dos insumos. É o que pode ter ocorrido em janeiro de 2000, quando foram necessárias trocar 34,77 sc para adquirir uma tonelada de fertilizantes (em termos nominais, o preço da batata ficou em R$ 8,25 a saca de 50kg).
Registra-se ainda que, em 2001, na média, em termos nominais, os preços da batata foram superiores aos revalecentes em 2002, ocorrendo o inverso em relação aos preços dos fertilizantes, de tal modo que, ao longo de 2002, o preço de paridade foi desfavorável ao bataticultor em relação a 2001 (vide Figura 1).
Preço de paridade para os defensivos agrícolas A análise da relação de troca foi realizada para um determinado fungicida aplicado à bataticultura (no mercado, encontrado em caixa de 25kg) e para dois inseticidas (no mercado, disponível em litro e um outro em embalagem de 10kg). As figuras 2 e 3 se referem aos termos de troca para fungicida e inseticidas, respectivamente.


Como no caso de fertilizante, observou-se o mesmo efeito da desvalorização do Real em janeiro de 1999, quando a relação de troca para o fungicida, que se mostrava favorável ao bataticultor em novembro e dezembro de 1998, registrando um decréscimo em número de sacas para adquirir a mesma quantidade de insumo (11,7 sc e 10,15 sc, respectivamente), sofreu uma inversão, chegando em fevereiro ao requerimento de 19,61 sc para se adquirir uma caixa de 25kg com o fungicida (figura 2). A caixa de 25kg do fungicida pula de R$ 215,66 (dezembro de 1998) para R$ 318,70 (fevereiro 1999), um salto acima de R$ 100,00 em apenas dois meses. Somente em dois períodos, de poucos meses, a relação de troca se mostrou mais favorável ao bataticultor, sendo requeridas menos de dez sacas para comprar o fungicida; um primeiro, antes da desvalorização do Real (março a julho de 1998) e um segundo, pós-desvalorização, entre setembro 2000 e junho 2001. Neste último, em função dos bons preços alcançados pelo bataticultor que, em termos nominais, superou os R$ 40,00/sc 50kg entre abril e junho de 2001. Na série analisada de 60 meses, o menor preço nominal obtido pela venda de uma saca pelo bataticultor foi janeiro 2000 (R$ 8,25/sc) e o maior foi em abril 2001 (R$ 42,12/sc).





No caso dos inseticidas, observou-se idêntico efeito (Figura 3) ocorrido com fertilizante e fungicida. Os termos de troca se mostraram desfavoráveis ao bataticultor, logo após a desvalorização do Real (janeiro 1999), quando ocorre a inversão no gráfico atingindo um pico de desfavorabilidade em janeiro de 2000, face ao menor preço nominal de venda (R$ 8,25 sc) alcançado pelo bataticultor nos 60 meses analisados. Na fase pós-desvalorização do Real, há um período de “alívio” para o bataticultor, compreendido entre os meses de setembro de 2000 a junho de 2001, para posteriormente apresentar desfavorabilidade a partir de julho de 2001, continuando com pequenas oscilações até dezembro de 2002. É bom lembrar que a desvalorização do Real no comparativo de 2001 e 2002, foi maior neste último ano, elevando em termos nominais, os preços dos inseticidas. Em 2001, na média anual, US$ 1,00 foi convertido em R$ 2,35, e, em 2002, correspondeu a R$ 2,93. * Inseticida 1 (sc/litro) – azul, e Inseticida 2 (sc/10 kg) – verde.
Sacas (sc) de 50 Kg. Considerações Finais As análises de termos de troca (preço de paridade) representam uma ferramenta auxiliar para o bataticultor no acompanhamento de seu fluxo de caixa. A simples relação mensal entre preços do produto e de um importante insumo estabelece um parâmetro que sinaliza o andamento de seu fluxo de receita e custo. É um instrumento auxiliar de planejamento e controle para o produtor.
Como é conhecida a importância dos fertilizantes e defensivos na decomposição dos custos para a batata e, como estes insumos têm forte dependência de importações de ingredientes e matérias-primas, o estudo tentou captar quais os efeitos no balanço preço recebido pelo produtor e preços pagos para adquirir fertilizante, fungicida e inseticidas, pós-desvalorização do Real (janeiro de 1999).
Incluiu-se o ano de 1998, como parâmetro de comparação, antes da desvalorização do Real. Verificou-se que o preço de paridade (relação de troca) do bataticultor deteriorou-se após a desvalorização cambial, pois os impactos desta elevaram os preços dos insumos dependentes de importação, nem sempre acompanhado por aumento no preço do produto. A desfavorabilidade para o bataticultor foi mais forte no período de janeiro de 1999 até janeiro de 2000, fase crucial de acomodação aos efeitos da desvalorização e repasse aos preços dos insumos, devido aos custos mais elevados com as importações de ingredientes e matérias primas. Houve um período, praticamente de um ano (maio 2000 a junho 2001), em que a relação de troca foi favorável ao bataticultor, em função da elevação nominal do preço da batata não acompanhada na mesma proporcionalidade pelos preços dos insumos. Porém, com a desvalorização constante do Real em 2002, relacionado a 2001, novamente a relação se torna desfavorável, atingindo um pico em outubro de 2002, mas não tão perversa como o de janeiro de 2000, considerado o pior mês da série de cinco anos analisados.
 

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