Batata Show Nº 11
Ano 5 - Abril/2005
 
 

 

 

 

 

 

 
DESAFIOS DA PRODUÇÃO DE BATATA ORGÂNICA NO PARANÁ.

Nilceu R.X. de Nazareno - IAPAR, Instituto Agronômico do Paraná. - Pesquisador III, Área de Proteção de
Plantas - IAPAR, C.P: 2031; CEP: 80011-970 - Curitiba, PR
(41) 551.1036 - nilceu@iapar.br.

O Paraná, até cerca de 5 anos atrás era considerado o maior produtor de batata consumo do Brasil. As mudanças de mercado e tecnológicas, atreladas à conjuntura econômica nacional, fizeram com que muitos
produtores da região metropolitana de Curitiba saíssem dessa atividade para outras de menor investimento. Por exemplo, encontram-se facilmente campos de produção de soja nessa região, cujo cultivo era inexistente até a pouco, antes dessa crise. A região metropolitana de Curitiba, compreendendo os municípios “batateiros” de Araucária, Contenda, Campo Largo, Balsa Nova, Almirante Tamandaré, Campo Magro, Lapa, entre outros, era a responsável por grande parte da produção da chamada “batata
comum”, caracterizada por tubérculos com menor qualidade comercial e, portanto, de menor preço de mercado. Este tipo de produção, de menor investimento, estava na mão de pequenos produtores (SCOTTI & NAZARENO, 2000). Como o valor de mercado dessa batata foi se deteriorando, os pequenos produtores foram abandonando o cultivo da espécie e hoje a área com ela na região está muito reduzida.

Soma-se a esse panorama o aumento das restrições legais de uso da terra face à demanda crescente por mananciais de água para a região metropolitana e a criação de áreas de proteção ambiental (APAs). Com isso, os produtores locais se encontram com a necessidade de converter suas áreas para sistemas alternativos de produção, com a eliminação gradativa de insumos (fertilizantes altamente solúveis e pesticidas). Para o caso da produção de batata, essa tarefa se tornou um grande desafio, com técnicos e produtores se unindo na busca de soluções para garantir o suprimento de mercado para essa cultura e a
permanência do trabalhador rural no campo.

Para a pesquisa, o grande desafio está em desenvolver e/ou adaptar tecnologias apropriadas à produção orgânica de batata fazendo com que o produtor possa ter retorno econômico, para a extensão rural está em
amealhar as informações dispersas entre trabalhos escassos de pesquisa e na experiência de produtores, e a estes últimos está em formatar um sistema de produção adaptado para o seu local, se adaptar às
normas das instituições certificadoras e lapidar um sistema de mercado mais justo e garantido para a sua comercialização.

Recentemente, DAROLT et al (2004) fizeram uma análise comparativa entre sistema orgânico e convencional de batata na região de Curitiba, verificando-se os entraves e economicidade entre os sistemas e o trabalho completo se encontra na página: www.planetaorganico.com.br/trabalhos.htm. Pretende-se aqui mais fazer uma reflexão junto ao público vinculado à Associação Brasileira da Batata – ABBA – do que trazer um pacote tecnológico pronto para esse sistema de produção alternativo. Cabe lembrar que não tem a pretensão de sugerir aos grandes produtores a conversão de suas áreas para a
produção orgânica, mas de mostrar que existem produtores bem sucedidos nessa linha, que tem demanda e mercado para tal e, quem sabe, abrir um espaço na ABBA para fóruns de discussão técnica para o aumento da eficiência do sistema, pois afinal a batata é “brasileira”.

No âmbito do Estado do Paraná, os principais entraves na produção orgânica de batata são: variedades rústicas, mas de potencial comercialização, e disponibilização de semente, controle doenças e pragas, para
garantir tubérculos de boa aparência, fertilização da cultura e a comercialização da produção. À seguir são discutidos alguns pontos sobre esses entraves e propostas de solução à luz do que há disponível.

Utilização de Variedades:
Cultivares nacionais, mais rústicas, como ‘Araucária’, ‘Catucha’, ‘Monte Bonito’ já foram testadas por produtores e tiveram baixo nível de aceitação. Dos entraves nessas alternativas foram identificados à suscetibilidade a mancha chocolate e sarna comum, desuniformidade de tubérculos, película áspera,
descontinuidade de oferta de semente, entre outros. Apesar da resistência a doenças foliares delas, os produtores orgânicos ainda preferem as cultivares importadas (‘Monalisa’, ‘Ágata’, ‘Asterix’), que são suscetíveis à requeima e oneram o custo pela necessidade de controle. O Iapar está em fase final de multiplicação de um clone para lançamento para esse nicho de produção. Esse clone, PHO 15, tão resistente à requeima como ‘Araucária’, foi disponibilizado a um produtor da região, Sr. Aloyse Gurski, há 5 anos para teste e validação, juntamente com outras cultivares importadas. O clone teve aceitação total e hoje ele só produz esse material para comercialização, tendo abandonado a utilização da ‘Monalisa’.
Além da resistência de campo à requeima, PHO 15 não desenvolve mancha chocolate e é tolerante à sarna comum. Ainda carece de solução a produção orgânica de sementes. Cada produtor está produzindo a sua própria semente.


Desenvolvimento vegetativo da cultivar Ágata em sistema de produção orgânica, aos 40 dias do plantio, na Estação Experimental do Iapar, em Curitiba, safra das águas/04.

Cultivar Ágata em sistema de produção orgânica,
em fase de pré-colheita, na Estação Experimental
do Iapar, em Curitiba, safra das águas/04.

Aspecto dos tubérculos da cultivar Ágata em sistema de produção orgânica, na Estação Experimental do Iapar, em Curitiba, safra das águas/04.

 

Controle de Doenças e Pragas:
Excetuando o controle através da resistência genética, pouca alternativa resta aos produtores. Para controle de doenças foliares, ainda é permitida a utilização de calda bordalesa. No entanto, o controle da requeima dessa forma, em cultivares suscetíveis e condições climáticas favoráveis, é muito deficiente, requerendo muitas pulverizações. Tem-se preconizado o uso de biofertilizantes na parte aérea de forma preventiva, buscando aliar maior nível nutricional da plantas via foliar e o controle biológico. Em área experimental do Iapar, em Curitiba, produziu-se, na safra das águas/04, ‘Ágata’ com cama de aviário na
base, adubação de cobertura com húmus de minhoca localmente produzido e pulverizações semanais de biofertilizante (10%), chegando a níveis de 15 t/ha de produtividade (ver figuras). A requeima se instalou na cultura cerca de 50 dias do plantio e foram feitas 3 pulverizações de calda bordaleza (1%).

O controle de pragas tem sido feito com extratos de plantas (por exemplo, Neem, calda de fumo, armadilhas), mas os produtores que já estão em períodos longos de conversão (5 ou mais anos) depõem que seus sistemas de produção integrado e biodiversidade na propriedade já atingiram equilíbrio e que as
pragas têm sido reduzidas, provavelmente pelo controle biológico naturalmente estabelecido.

Manejo do Solo e da Fertilidade:
O preparo do solo é o mesmo do sistema convencional e a substituição do adubo formulado é feita com adubos orgânicos, cinzas de autofornos, compostos, biofertilizantes, fosfatos naturais, entre outros. Está sendo iniciado no Iapar um estudo de rotações de culturas adicionando-se plantas de cobertura
verde de inverno (aveia preta, tremoço, ervilhaca, nabo forrageiro, etc) e de verão (crotalárias, mucunas, etc) como forma de aumentar a biodiversidade do sistema, aumentar a palhada para permitir o plantio
direto das culturas companheiras da batata (milho, feijão, cereais de inverno) e potencializar a redução da população de nematóides. No experimento descrito acima, ‘Ágata’ foi plantada seguida do consórcio de
inverno de aveia preta, nabo forrageiro, tremoço, ervilha forrageira e ervilhaca. Amostras de 30 kg de batata foram entregues a dois produtores orgânicos para suas avaliações pessoais da qualidade dos
tubérculos para comercialização na feira dos produtores. Segundo seus depoimentos, os tubérculos apresentavam tamanho aceitável e boa aparência comercial e foram vendidos rapidamente ao preço que variou entre R$ 2,00 e R$ 2,50/kg, em fevereiro deste ano.

Comercialização:
A comercialização da batata orgânica segue o mesmo ritual da venda de outros produtos da mesma natureza. Na região metropolitana e na capital existem várias feiras de produtos orgânicos onde o produtor faz a comercialização direta ao consumidor. Nessas condições, o preço recebido é maior que quando o produto é destinado para empresas que selecionam e embalam, ou para redes de supermercados que disponibilizam a batata nas gôndolas de produtos orgânicos. Nestes casos o produtor vende seu produto em valores próximos a R$ 1,00/kg, porém entrega toda a produção, inclusive os tubérculos de menor tamanho.

Considerações Finais:
Não resta dúvidas que é possível fazer a produção da batata em sistemas orgânicos. No entanto, existe uma grande demanda por melhoria da eficiência do sistema produtivo, garantindo maior rendimento físico e qualidade comercial do produto. Os campos de pesquisa a explorar são vastos desde a intensificação na busca de cultivares adaptadas, melhores alternativas de rotações, fertilização e cultivo do solo, métodos de controle de doenças e pragas, entre outros. Os pequenos produtores que abandonaram a cultura em função da conjuntura sócio-econômica estão ansiosos por tecnologias que os viabilizem nessa atividade
e trazê-los de volta para a produção de batata é um dever e um sonho de todo técnico envolvido com a cultura.

Referências:
DAROLT, M.; RODRIGUES, A.S.;
NAZARENO, N.R.X.; BRISOLLA, A.D. &
RUPPEL, O. Análise comparativa entre o sistema
orgânico e convencional de batata comum.
www.planetaorganico.com.br/trabalhos.htm.
SCOTTI, C.A. & NAZARENO, N.R.X. DE. A
Batata. In: IAPAR, Estudo de Cadeias Produtivas do
Agronegócio Paranaense – Agronegócio do Paraná:
Perfil e Características das Demandas das Cadeias
Produtivas. Instituto Agronômico do Paraná,
Londrina, Documento, 24. p. 109-114. 2000.

 
 
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