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Batata transgênica no Brasil e
no mundo
Eduardo Romano, PhD romano@cenargen.embrapa.br Embrapa
Recursos Genéticos e Biotecnologia - CENARGEN,
C.P., 02.372, 70849 Brasília, DF.
Desde a adoção da transgenia na agricultura
em 1994, o mundo tem assistido a um enorme crescimento
da
área plantada com transgênicos. Em 1996,
havia 1,7 milhão de hectares cultivados que aumentaram,
até o final de 2002, para impressionantes 58
milhões. Isto significa que hoje, a cada cinco
plantas cultivadas no mundo, uma é transgênica.
Esta alta taxa de adoção reflete a satisfação
do produtor com os benefícios advindos da utilização
desta tecnologia que incluem maior produtividade, menor
aplicação de pesticidas convencionais
e, conseqüentemente, maiores lucros para os produtores
que adotam uma tecnologia ambientalmente mais segura.
As culturas transgênicas com as maiores áreas
plantadas são em ordem decrescente: soja, milho,
algodão e canola. Batata transgênica já
foi aprovada para comercialização no Canadá,
Japão e Estados Unidos e, de acordo com a FAO,
mais de 45 países em desenvolvimento trabalham
em projetos de pesquisa para o
desenvolvimento de batatas transgênicas. As características
que foram introduzidas nas variedades
comerciais são resistentes a viroses e insetos-pragas
e as pesquisas conduzidas em países em desenvolvimento
incluem, além destas características,
resistência a fungos, resistência ao frio,
composição de amido, conteúdo de
vitaminas e resistência a bactérias. Os
países desenvolvidos também estão
realizando pesquisas para utilização de
batatas transgênicas como bioreatores, ou seja,
como veículos para a produção de
proteínas de alto valor agregado.
No Brasil, a Embrapa já desenvolveu clones
de Achat, altamente resistentes ao vírus Y da
batata (PVY), e de Baronesa ao vírus do enrolamento
das folhas (PLRV). O primeiro já foi incorporado
ao Macroprograma de Biossegurança da Embrapa
e o segundo deve ser incorporado brevemente.
O Macroprograma de Biossegurança é um
projeto em rede do qual participam vários centros
da Embrapa e que objetiva avaliar a segurança
ambiental e alimentar dos eventos elite, que são
produzidos dentro da empresa. Estas análises
são essenciais para garantir a segurança
de um produto transgênico, antes que este venha
a ser comercializado.
As análises seguem padrões extremamente
rigorosos que são determinados pela comissão
do Codex Alimentarius, órgão do ONU criado
para garantir a segurança dos
alimentos comercializados. É importante ressaltar
que todos os produtos transgênicos, que já
são comercializados internacionalmente, passaram
por estas análises e demonstraram ser seguros,
o que foi atestado, recentemente, pela Organização
Mundial da Saúde em relatório oficial.
As variedades, Achat e Baronesa, utilizadas inicialmente
no projeto de batata resistente a viroses da Embrapa,
não são de larga utilização
atualmente no Brasil apesar de que, na época
em que o projeto foi iniciado, Achat se constituía
na variedade líder.
Os mesmos vetores utilizados em Achat e Baronesa estão
sendo utilizados para obtenção de outras
variedades como Monalisa e Bintje. No entanto, por razões
técnicas e comerciais, o ideal seria que novos
vetores fossem desenvolvidos. Primeiramente, estes vetores
não permitem que seja obtida, em uma única
planta de batata resistência, combinada as duas
viroses. Além desta desvantagem, os antigos vetores
utilizaram a tecnologia do capsídio e da replicase
que eram as tecnologias disponíveis na época
quando o projeto foi iniciado. Esta tecnologia fornece
uma freqüência baixa de plantas transgênicas
resistentes. Nós obtivemos, aproximadamente,
uma planta com alta resistência a cada 100-200
plantas transgênicas. Como o número de
plantas transgênicas é um fator limitante,
o uso destes vetores dificulta, enormemente, o desenvolvimento
de outras variedades com resistência combinada
às duas viroses. Estes problemas podem ser resolvidos
utilizando-se vetores com a tecnologia de RNA interferente
(RNAi), que foi recentemente desenvolvida. Vetores que
exploram esta nova tecnologia permitem que, praticamente,
todas plantas transgênicas obtidas expressem alta
resistência viral, simultaneamente a mais de uma
virose.

Direita - batata transgênica
/ Esquerda - batata não transgênica, ambas
inoculadas com uma mistura de PVY-N e PVY-O
Portanto, a obtenção de outras variedades
como Monalisa e Bintje, com resistência combinada
a PVY e LRV, seria extremamente facilitada pela utilização
de RNAi. Outro problema do uso dos antigos vetores é
que eles possuem o gene npt II que confere resistência
a um antibiótico. Apesar deste gene ser reconhecidamente
seguro pelo Codex Alimentarius, é possível
que um produto com este gene possa encontrar alguma
resistência à sua comercialização
por questões de percepção pública.
O próprio Codex
Alimentarius tem orientado que novos produtos transgênicos
devem evitar o uso de genes de resistência a antibióticos.
Portanto, espera-se que os países membros da
Organização Mundial de Comércio
sigam esta orientação.
Novas variedades de batata derivadas de Monalisa e Bintje,
com resistência combinada às principais
viroses da cultura, trariam uma enorme redução
na degenerescência dos tubérculos, aumentando
a produtividade e reduzindo os custos para os produtores,
já que estes não necessitariam de comprar,
a cada plantio, tubérculos-sementes de batata
para instalar suas lavouras. Além da Embrapa
já dominar tecnologia para obtenção
de qualquer variedade de batata com alta resistência
a PVY e PLRV, a empresa conta com genes que podem conferir
tolerância à seca e resistência a
Rhizoctonia solani. A Embrapa vem trabalhando em vários
projetos para desenvolvimento de plantas transgênicas
em diferentes culturas. Muitos destes projetos têm
sido financiados pelos produtores através de
fundos ou associações. Como
exemplo de projetos que vem alcançando resultados
expressivos sob esta forma de financiamento, podem ser
citados os de transgenia e/ou genômica funcional,
voltados para a identificação de genes
com aplicação agronômica em café,
algodão, eucalipto e soja.
A adoção da transgenia na agricultura
se constitui hoje em uma realidade mundial e uma necessidade
para os produtores que desejam se manter competitivos.
As empresas de biotecnologia, assim como associações
de produtores, estão investindo muitos recursos
em pesquisa e desenvolvimento de transgênicos
de forma a consolidar uma posição em um
mercado globalizado e cada vez mais competitivo.
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