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“Sarna Comum” Nova ameaça
de uma velha doença
Hilário da Silva Miranda Filho Centro de Horticultura
Instituto Agronômico de Campinas
A “sarna comum” é uma das doenças
que afetam os tubérculos, a mais conhecida pelos
bataticultores brasileiros. Presente na maioria dos
campos de produção, seus danos econômicos,
tradicionalmente, sempre foram de pequena monta ou mesmo
insignificantes em culturas conduzidas no
plantio ‘das águas’ ou sob irrigação.
Isto não impediu que houvesse sempre uma restrição
ao uso da calagem, baseado na crença generalizada
de que o aumento do pH do solo fosse afetar, pelo aumento
da freqüência de tubérculos atacados,
a qualidade da produção.
Posteriormente, baseando-se principalmente em trabalhos
de pesquisas holandesas, demonstrou-se que o Streptomyces
scabies, o agente da moléstia, manifestavase
principalmente em condições de seca. Assim,
se nos primeiros vinte dias depois do início
da formação dos tubérculos não
existisse um filme de água em torno dos tubérculos,
o Streptomyces ganharia em competição
de bactérias da flora natural das lenticelas,
órgãos dos tubérculos responsáveis
pela transpiração, induzindo o aparecimento
de sintomas, independentemente do pH do solo. Nas condições
onde houvesse este filme de água, também
sem influência da reação do solo,
não haveria a ocorrência de sintomas.

Escala de Notas: 1 - sem lesões;
2 - uma lesão; 3 - duas a cinco lesões;
4 - mais que cico lesões
O contraste entre regiões como a de Guarapuava,
no Estado do Paraná, onde o ataque da ‘sarna
comum’ sempre foi freqüente, e a do sudoeste
do Estado de São Paulo, onde a moléstia
era rara, sendo o uso da irrigação na
segunda o principal fator de diferenciação
entre os pacotes tecnológicos utilizados vinha,
até certo ponto, confirmar esta hipótese.
Nos últimos anos, contudo, o número de
queixas sobre a ocorrência da “sarna comum”
cresceu drasticamente, sendo este fato atribuído
por alguns produtores ao aumento do teor de material
contaminado presente na batata-semente importada, enquanto
que outros duvidavam desta afirmação.
A constatação de que ataques violentos
da moléstia ocorriam em culturas mais
que satisfatoriamente irrigadas levou o Instituto Agronômico
desenvolver uma série de experiências preliminares
sobre o problema. A primeira foi realizada na Estação
Experimental de Itararé, usando-se a variedade
brasileira Aracy, em ausência e presença
de irrigação; na ausência de calagem,
com valor de pH de 3,9.e com a aplicação
de 6 t/ ha de calcário, elevando-se este valor
para 4,5; e com quantidades crescentes de lesões
de sarna na batata-semente: sem lesões aparentes,
com uma lesão, com duas a cinco
lesões e com mais do que cinco lesões
por tubérculo. Todos os fatores foram importantes
na determinação da doença nos tubérculos
colhidos, embora aparecessem sintomas nas condições
menos favoráveis à
moléstia: batata-semente livre do patógeno,
ausência de calcário e presença
da irrigação.
A ocorrência da moléstia em valores de
pH de 3,9 já sugeriu que o agente causal não
se tratasse do Streptomyces scabies, uma vez que este
organismo não ocorre em solos com pH inferior
a 5,5.
Na segunda, instalada junto ao grupo Hoshino, em Itapetininga,
região onde a “sarna” não
constitui problema crônico, comparou-se as mesmas
quantidades crescentes de sarna na variedade Aracy,
com
batata-semente proveniente de Itararé e na variedade
Jätte-Bintje com semente importada da Suécia,
sempre em presença de irrigação.
Enquanto que nesta última o aumento do teor inicial
da doença não teve efeito algum na quantidade
de tubérculos afetados na colheita, que praticamente
se apresentavam livres de sintomas, na batata-semente
brasileira houve um aumento linear nos tubérculos
afetados na colheita. Assim, somente os sem contaminação
no tubérculo- semente não tinham sintomas
quando da colheita, e o percentual dos sintomáticos
crescia com o aumento da contaminação
inicial. Este resultado mais uma vez sugere que se tratam
de organismos diferentes, causando sintomas semelhantes.
A terceira experiência foi realizada na Serra
do Salitre, MG, em propriedade do sr. Marcelo B. Carvalho,
onde já havia ocorrido o problema. Foi utilizada
a variedade Bintje, com batata-semente importada. A
experiência foi realizada com as mesmas quantidades
de “sarna” na batata-semente das anteriores,
e o contraste em relação à umidade
dos tubérculos foi conseguida cobrindo- se, desde
o plantio, as parcelas experimentais que deveriam ser
mantidas sem umidade nos tubérculos formados,
com filme plástico transparente. Assim, as plantas
tiveram abastecimento suficiente de água, por
movimento lateral, embora os tubérculos fossem
formados na absoluta ausência de umidade superficial.
Não houve efeito da cobertura do solo sobre a
incidência da moléstia, que ocorreu de
maneira bastante severa em todos os tratamentos, inclusive
no que não havia contaminação do
tubérculo- semente e ausência da cobertura
do
solo. No entanto, diferentemente da experiência
conduzida em Itapetininga houve efeito da presença
de “sarna” na batata-semente, sugerindo
um sinergismo entre o patógeno presente no solo
e o existente na semente.
De acordo com informações pessoais da
professora Rosemary Loria, da Universidade de Cornell,
dos Estados Unidos, a patogenicidade do Streptomyces
scabies é devida a um único gene, que
pode ser transmitido para espécies indígenas
de Streptomyces. Possivelmente foi o que ocorreu no
Brasil, com a transmissão da patogenicidade para
formas mais agressivas e perfeitamente adaptadas a condições
ácidas. Evidentemente esta série de experiências
preliminares foram conduzidas em condições
de extrema severidade, com tratamentos em que todos
os tubérculos-semente utilizados tinham pelo
menos uma lesão da “sarna”. Mas esta
manifestou-se mesmo nos tubérculos que apresentavam-se
livres. Temos, pois, possivelmente, um variante de Streptomyces
que não pode ser controlado apenas pelo controle
da qualidade do material de propagação,
embora esta medida seja sempre obrigatória, nem
pelo uso de esquemas eficientes de irrigação.
De acordo com informação pessoal do
professor Richard Zinc, da Universidade do Colorado,
quando do IV Seminário Latinoamericano de Uso
y Comercialización de la Papa, em março
passado no Uruguai, não há produto químico
que garanta totalmente a sanidade de tubérculos
em relação à “sarna comum”.
Aconselha-se, portanto, esquemas longos de rotação
de culturas e enfatiza-se junto às Instituições
de Pesquisa e às indústrias químicas
ações rápidas para a minimização
ou mesmo a solução deste novo problema,
cujos danos econômicos, às vezes, de grande
monta já se fazem sentir na bataticultura brasileira.

Tubérculos produzidos na Serra
do Sulitre sem cobertura plástica e com irrigação
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