Batata Show Nº 01
Ano 1 - Maio/2001
 
 

 

 

 

 

 

 

“Sarna Comum” Nova ameaça de uma velha doença

Hilário da Silva Miranda Filho Centro de Horticultura Instituto Agronômico de Campinas

A “sarna comum” é uma das doenças que afetam os tubérculos, a mais conhecida pelos bataticultores brasileiros. Presente na maioria dos campos de produção, seus danos econômicos, tradicionalmente, sempre foram de pequena monta ou mesmo insignificantes em culturas conduzidas no
plantio ‘das águas’ ou sob irrigação. Isto não impediu que houvesse sempre uma restrição ao uso da calagem, baseado na crença generalizada de que o aumento do pH do solo fosse afetar, pelo aumento da freqüência de tubérculos atacados, a qualidade da produção.

Posteriormente, baseando-se principalmente em trabalhos de pesquisas holandesas, demonstrou-se que o Streptomyces scabies, o agente da moléstia, manifestavase principalmente em condições de seca. Assim, se nos primeiros vinte dias depois do início da formação dos tubérculos não existisse um filme de água em torno dos tubérculos, o Streptomyces ganharia em competição de bactérias da flora natural das lenticelas, órgãos dos tubérculos responsáveis pela transpiração, induzindo o aparecimento de sintomas, independentemente do pH do solo. Nas condições onde houvesse este filme de água, também sem influência da reação do solo, não haveria a ocorrência de sintomas.

Escala de Notas: 1 - sem lesões; 2 - uma lesão; 3 - duas a cinco lesões; 4 - mais que cico lesões

O contraste entre regiões como a de Guarapuava, no Estado do Paraná, onde o ataque da ‘sarna comum’ sempre foi freqüente, e a do sudoeste do Estado de São Paulo, onde a moléstia era rara, sendo o uso da irrigação na segunda o principal fator de diferenciação entre os pacotes tecnológicos utilizados vinha, até certo ponto, confirmar esta hipótese. Nos últimos anos, contudo, o número de queixas sobre a ocorrência da “sarna comum” cresceu drasticamente, sendo este fato atribuído por alguns produtores ao aumento do teor de material contaminado presente na batata-semente importada, enquanto que outros duvidavam desta afirmação. A constatação de que ataques violentos da moléstia ocorriam em culturas mais
que satisfatoriamente irrigadas levou o Instituto Agronômico desenvolver uma série de experiências preliminares sobre o problema. A primeira foi realizada na Estação Experimental de Itararé, usando-se a variedade brasileira Aracy, em ausência e presença de irrigação; na ausência de calagem, com valor de pH de 3,9.e com a aplicação de 6 t/ ha de calcário, elevando-se este valor para 4,5; e com quantidades crescentes de lesões de sarna na batata-semente: sem lesões aparentes, com uma lesão, com duas a cinco
lesões e com mais do que cinco lesões por tubérculo. Todos os fatores foram importantes na determinação da doença nos tubérculos colhidos, embora aparecessem sintomas nas condições menos favoráveis à
moléstia: batata-semente livre do patógeno, ausência de calcário e presença da irrigação.

A ocorrência da moléstia em valores de pH de 3,9 já sugeriu que o agente causal não se tratasse do Streptomyces scabies, uma vez que este organismo não ocorre em solos com pH inferior a 5,5.
Na segunda, instalada junto ao grupo Hoshino, em Itapetininga, região onde a “sarna” não constitui problema crônico, comparou-se as mesmas quantidades crescentes de sarna na variedade Aracy, com
batata-semente proveniente de Itararé e na variedade Jätte-Bintje com semente importada da Suécia, sempre em presença de irrigação. Enquanto que nesta última o aumento do teor inicial da doença não teve efeito algum na quantidade de tubérculos afetados na colheita, que praticamente se apresentavam livres de sintomas, na batata-semente brasileira houve um aumento linear nos tubérculos afetados na colheita. Assim, somente os sem contaminação no tubérculo- semente não tinham sintomas quando da colheita, e o percentual dos sintomáticos crescia com o aumento da contaminação inicial. Este resultado mais uma vez sugere que se tratam de organismos diferentes, causando sintomas semelhantes.

A terceira experiência foi realizada na Serra do Salitre, MG, em propriedade do sr. Marcelo B. Carvalho, onde já havia ocorrido o problema. Foi utilizada a variedade Bintje, com batata-semente importada. A experiência foi realizada com as mesmas quantidades de “sarna” na batata-semente das anteriores, e o contraste em relação à umidade dos tubérculos foi conseguida cobrindo- se, desde o plantio, as parcelas experimentais que deveriam ser mantidas sem umidade nos tubérculos formados, com filme plástico transparente. Assim, as plantas tiveram abastecimento suficiente de água, por movimento lateral, embora os tubérculos fossem formados na absoluta ausência de umidade superficial. Não houve efeito da cobertura do solo sobre a incidência da moléstia, que ocorreu de maneira bastante severa em todos os tratamentos, inclusive no que não havia contaminação do tubérculo- semente e ausência da cobertura do
solo. No entanto, diferentemente da experiência conduzida em Itapetininga houve efeito da presença de “sarna” na batata-semente, sugerindo um sinergismo entre o patógeno presente no solo e o existente na semente.

De acordo com informações pessoais da professora Rosemary Loria, da Universidade de Cornell, dos Estados Unidos, a patogenicidade do Streptomyces scabies é devida a um único gene, que pode ser transmitido para espécies indígenas de Streptomyces. Possivelmente foi o que ocorreu no Brasil, com a transmissão da patogenicidade para formas mais agressivas e perfeitamente adaptadas a condições ácidas. Evidentemente esta série de experiências preliminares foram conduzidas em condições de extrema severidade, com tratamentos em que todos os tubérculos-semente utilizados tinham pelo menos uma lesão da “sarna”. Mas esta manifestou-se mesmo nos tubérculos que apresentavam-se livres. Temos, pois, possivelmente, um variante de Streptomyces que não pode ser controlado apenas pelo controle da qualidade do material de propagação, embora esta medida seja sempre obrigatória, nem pelo uso de esquemas eficientes de irrigação.

De acordo com informação pessoal do professor Richard Zinc, da Universidade do Colorado, quando do IV Seminário Latinoamericano de Uso y Comercialización de la Papa, em março passado no Uruguai, não há produto químico que garanta totalmente a sanidade de tubérculos em relação à “sarna comum”. Aconselha-se, portanto, esquemas longos de rotação de culturas e enfatiza-se junto às Instituições de Pesquisa e às indústrias químicas ações rápidas para a minimização ou mesmo a solução deste novo problema, cujos danos econômicos, às vezes, de grande monta já se fazem sentir na bataticultura brasileira.

Tubérculos produzidos na Serra do Sulitre sem cobertura plástica e com irrigação

 
 
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