Batata Show Nº 01
Ano 1 - Maio/2001
 
 

 

 

 

 

 

 

Agribusiness. O maior negócio do Brasil.

1.A globalização mundial é um bom negócio para o Brasil?
RR.: A globalização da economia somada à liberalização comercial representa uma guerra por mercados, sem contemplação. Para vencê-la é preciso ser eficiente e competitivo em qualquer setor da economia,
para gerar produtos e serviços de qualidade e a preços melhores que os da concorrência. Também é preciso ser ágil comercialmente e ter boa organização classista, capaz de fazer o marketing adequado. E tudo isto depende fundamentalmente de políticas públicas isonômicas em relação aos competidores, de
uma boa organização privada tanto política como econômica, e de uma eficiente negociação externa.
Os setores que conseguirem tudo isto saem ganhando com a globalização; os que não o fizerem serão eliminados do mercado. No Brasil teremos de tudo: desde os grandes vencedores até os eliminados, dependendo das habilidades de cada um.

2.A consolidação da ALCA trará benefício ao Brasil?
RR.: A ALCA é uma grande motivação para o Nafta (Estados Unidos, Canadá e México) porque, por uma questão geo-econômica, a América do Sul, a América Central e o Caribe são os mercados mais interessantes para ele, a médio e longo prazo. E, dentre todos os países da região, o Brasil é, sem dúvida, a
maior atração para o Nafta, dado seu imenso potencial consumidor. Afinal, temos 100 milhões de pessoas na classe média ou alta. Por isto, a ALCA é tão obstinadamente procurada pelos norte-americanos.
Será muito boa para o Brasil, desde que o protecionismo agrícola nos Estados Unidos e no Canadá sejam colocados em um nível que não iniba nossa produção rural. Hoje isto não acontece, porque o volume de subsídios que os agricultores norte-americanos recebem é tão grande (casos da soja e do
frango) e; as tarifas para importação de nossos produtos tão altos (suco de laranja, fumo) e as quotas tão limitadas (açúcar), que a concorrência é desleal. É preciso mudar isto.

A nova diretoria da ABASP
Eleitos na 6ª Assembléia Geral em 10/04/2001 - abr/2001 à mar/2002

Presidente:
EMILIO KENJI OKAMURA
(Capão Bonito/SP)
Vice-Presidente:
TADASHI JORGE MORIOKA
(Pilar do Sul/SP)
Diretor Financeiro:
TSUYOSHI OI (Itapetininga/SP)
Conselheiros:
KORO HAMAGUCHI (Tatuí/SP)
SHIGENORI INOUE (Tatuí/SP)
ROQUE BEZERRA
DANTAS(Itapetininga/SP)
MÁRIO NAGAHAMA (Pilar do Sul/SP)
JOAQUIM NISHI (Capão Bonito/SP)

Delegados Regionais:
Capão Bonito/SP
LINCOLN TOMIO KASHIMA
SERGIO YUKIO SUKESSADA
Itapetininga/SP
LINCOLN HOSHINO
TSUNEO HOSHINO
Pilar do Sul/SP
GETÚLIO YOKOTOBI
NOBUO SHIMIZU
Tatuí/SP
FLÁVIO HORIGUCHI
JORGE ASSAMU MORI

3. Caso a ALCA seja consolidada, o que poderá acontecer com o Mercosul?
RR.: O Mercosul está ameaçado, independente da ALCA. Os recentes problemas da Argentina fizeram este país pedir ao Brasil, em última análise, desrespeitar o Tratado de Assunção ao pedir para reduzir a
TEC. Os problemas do Mercosul, portanto, são internos a ele, e não externos. Aliás, a União Européia quer fazer parceria com o Mercosul, até para segurar o crescimento do mercado americano por aqui. A guerra é muito grande entre estes dois blocos, União Européia e o Nafta. Precisamos saber tirar
proveito disto, especialmente porque o Brasi é quase 80% do Mercosul. O que europeus e
americanos cobiçam é o nosso mercado. O Mercosul é apenas o guarda-chuva. Por outro lado, a consolidação do bloco também depende de uma maior aliança com os países do Grupo de Cairns, especialmente tendo em vista a Rodada do Milênio da OMC.

4. Qual a situação atual do agribusiness brasileiro? O Brasil está sendo beneficiado?
RR.: O Brasil ainda participa com menos de 3,5% do mercado mundial de commodities agrícolas. É muito pouco, para um país que é o maior produtor mundial de café, de açúcar de cana, de suco de laranja, de farelo de soja, etc. Mas podemos crescer muito. Para isto é preciso realizar as grandes reformas que o
governo sempre promete mas demora a cumprir. Precisamos da reforma tributária, da previdenciária, da legislação trabalhista. Precisamos também investir mais em tecnologia e em logística. E precisamos
aprender a negociar melhor na OMC e em outras organizações multilaterais de caráter comercial.
A partir daí, o empresário brasileiro deve investir em propaganda de seus produtos lá fora e fazer parcerias com distribuidores de outros países para participar dos resultados da distribuição interna.
Mas não podemos nos esquecer que o agribusiness é o maior negócio do Brasil. Somos responsáveis por 25% do valor de toda a produção do país nos mais diversos setores, geramos 37% dos empregos
nacionais, respondemos por 40% das exportações e somos superavitários na balança comercial, todos os anos, desde a década de 70.

5. Quais culturas e segmentos estão sendo favorecidos?
RR.: Ninguém está sendo objetivamente favorecido por nenhum instrumento específico. Uma exceção é a indústria de calçados, beneficiada pela tributação do couro “wet blue” que inibiu sua exportação. Mas,
os setores que são mais agressivos estão conquistando mercados. Bons exemplos são o café, o suco de laranja, o açúcar e o frango. Outro caso excepcional é o da carne. Nossos mercados crescerão, assim como os de proteína vegetal, graças ao surgimento da febre aftosa na Europa, complicando o problema que eles já tinham da “vaca louca”. Agora, é preciso cuidar muito bem do aspecto sanitário no Brasil, para não perder esta grande chance que a história nos dá, de firmar nossa posição como grandes exportadores
de carne. E, é claro, temos enormes potenciais na área de algodão, de frutas e de cereais, entre outros
produtos. O sucesso dependerá também da rastreabilidade e certificação de todos estes
produtos, hoje exigidas por consumidores dos países desenvolvidos.

6. Considerando que a batata brasileira não é um produto de exportação, mas sim um produto cuja importação vem crescendo regularmente, quais ações deveriam ser tomadas para evitar a decadência ou
desaparecimento de diversos segmentos da cadeia nacional?

RR.: As mesmas providências que outros setores nas mesmas circunstâncias estão precisando:
-investimento em tecnologia, em parceria com órgãos governamentais de pesquisa -organização da classe produtora, para ter unidade política de representação, junto a outras organizações do agronegócio.
-Industrialização, por conta de organizações de propriedade dos produtores, para garantir a agregação de valor -comercialização em bloco, para aumentar o poder de barganha -classificação e padronização por função da batata -lobby contra importações desnecessárias. Estes são alguns pontos comuns a outros
produtos. No entanto, a batata exige mais organização dada a pericibilidade do produto.

7. Como os produtores poderiam aumentar suas vendas de batatas frescas nos grandes supermercados, considerando que atualmente é quase impossível qualquer negociação devido às imposições estabelecidas?
RR.: Acredito que com negociação em grandes quantidades, é possível melhorar o poder de barganha. Mas, junto aos supermercados a classificação e a padronização, somadas ao marketing dos diferentes tipos, é também fundamental. Imagino que uma grande e única central de vendas de batata poderia ser uma enorme conquista do setor. Basta saber se isto é possível, dadas as diversidades das regiões
produtoras.

8. Considerando sua vasta experiência quanto ao processo associativista, quais são as principais atividades que uma associação deve realizar para a satisfação dos seus associados?
RR.: Uma associação deve fazer aquilo que seus associados precisam. Portanto, considerando o anteriormente exposto, uma entidade associativista deve:

- cuidar de alianças estratégicas com o governo, com o legislativo e com outras entidades do agribusiness, tendo um vista desde procedimentos na área de pesquisa até o lobby para mudanças institucionais
- fazer extensão rural, desde a parte agrícola até a embalagem
- providenciar investimentos em industrialização, comercialização e distribuição dos produtos
- fazer propaganda e marketing do seu setor e dos seus produtos.

9. Qual o futuro do agricultor brasileiro e quais são as principais recomendações que vossa senhoria poderia indicar para a sobrevivência e prosperidade dos mesmos?
RR.:
A agricultura brasileira tem um grande futuro. O Brasil cultiva 56 milhões de hectares e tem pelo menos mais 100 milhões para c u l t i v a r . Nenhum país do mundo tem isto. Ademais, temos 19% da água
doce do mundo e este é um insumo cada vez mais raro e mais caro.
Temos clima e gente para qualquer produto em todas as regiões. Além disto, ainda podemos evoluir muito em matéria de produtividade média, porque já temos tecnologia para competir com os países
mais avançados do planeta. Temos, então, um futuro excelente. Mas ele não está dado: é preciso conquistálo. E isto implica nas mudanças já referidas, de políticas públicas, organização privada e negociação internacional. Porém, toda e qualquer mudança nesta direção depende da opinião pública.
O cidadão urbano brasileiro acha que os agricultores são incompetentes e que exploram o pobre consumidor. Se não provarmos que somos importantes, nada vai mudar.
O agricultor norte-americano e o europeu, assim como o japonês, são admirados e respeitados pelos habitantes das cidades. Aqui, não. Para mudar isto, é preciso investir em uma melhor imagem do produtor. E só se consegue este trabalho com organização da classe. Em resumo: nosso futuro depende
basicamente da nossa própria capacidade de organização. Felizmente, isto vem melhorando, muito
devagar, mas é possível ver uma luz no fim do túnel.

Roberto Rodrigues, Presidente da ABAG e da ACI e professor da UNESP.

 
 
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