| SARNA PRATEADA DA BATATA
A sarna prateada, que até poucos anos era considerada
doença secundária da batata, vem ganhando
importância e já preocupa os “batateiros”
em todas as regiões produtoras do Brasil e até
no exterior. A seguir, são apresentadas respostas
a algumas perguntas freqüentes a respeito dessa
doença, selecionadas pelos pesquisadores Carlos
A. Lopes e Ailton Reis, da Embrapa Hortaliças.

O que causa a sarna prateada?
É causada pelo fungo Helminthosporium solani
(deuteromiceto, família Demathiacea,), que só
ataca a cultura da batata.
Como essa doença se manifesta?
Nos tubérculos, e somente na periderme (pele)
destes, nunca se aprofundando na polpa. Tubérculos
recém-colhidos, principalmente após a
lavação, apresentam manchas superficiais
irregulares, de aspecto metálico-prateado (Foto
1), que confere o nome à doença. Os sintomas
são mais evidentes em cultivares de pele mais
escura, como a Asterix e a Baronesa. No caso de batata
semente, que é armazenada por período
mais longo, a superfície afetada pelo fungo vai
se enrugando (Foto 2) com o tempo.
Foto 01 - Crédito: C.A.Lopes
Foto 02 - Crédito: C.A.Lopes

Por que as manchas são prateadas e enrugadas?
O fungo provoca a morte das células da periderme,
onde se formam pequenas bolsas de ar, que conferem o
aspecto prateado às lesões. O enrugamento
ocorre devido ao comprometimento da integridade da superfície
do tubérculo colonizada pelo fungo, o que acelera
a perda de água durante o período de armazenamento.
Por que essa doença tem aumentado de
importância nos últimos anos?
Por várias razões: 1. Porque o fungo tornou-se
resistente ao fungicida mais usado para seu controle,
o thiabendazole. Por isso, o controle químico
padrão perdeu a eficácia, acarretando
no aumento de sementes contaminadas; 2. Porque a competitividade
do setor exige cada vez mais um produto sem defeitos
de pele, por menores que sejam; 3. Porque tem diminuído
a oferta de batatas não lavadas (escovadas),
como era a Baraka, que “escondia” os sintomas
da doença; 4. Porque os produtores estão
cada vez mais treinados em diagnosticar a doença.
A doença afeta outras partes da planta?
Não. Mesmo outros órgãos subterrâneos
da planta, como raízes e estolões, não
são afetados.
Qual é o efeito da doença no
rendimento? Embora raramente interfira na produtividade,
a sarna prateada afeta a aparência do produto
comercial, especialmente no sofisticado mercado brasileiro
de batatas lavadas, onde predominam cultivares de peles
lisas e brilhantes.
A doença é transmitida pela batata-semente?
Sim. A batata-semente é o principal
veículo de transmissão. Logo após
o plantio, o fungo começa a se multiplicar através
das estruturas presentes na superfície dos tubérculos
infestados, com ou sem manifestação de
sintomas. Essas estruturas, principalmente os esporos,
contaminam os tubérculos filhos e iniciam novo
ciclo da doença.
Se a doença é eficientemente
transmitida pela batata-semente, a tolerância
para ela não deveria ser “zero”?
Tecnicamente, a tolerância “zero”
seria a mais recomendada, mas isso não é
possível na prática, pois a freqüência
com a doença que vem acontecendo comprometeria
a oferta de batata-semente, colocando em risco a produção
de batata-consumo.
Qual a tolerância atual para a sarna
prateada na batata-semente? Essa tolerância
está oficializada pela Instrução
Normativa de 05 de março de 2004, do Ministério
da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA).
O nível de tolerância depende da classe
de batata-semente e da área do tubérculo
afetada pela doença. Se os tubérculos
tiverem acima de 1/8 da superfície atacada, as
tolerâncias são de 2%, 3% e 5% nas classes
básica, registrada e certificada, respectivamente.
Se os tubérculos apresentarem menos de 1/8 da
superfície tomada pela doença, a tolerância
é de 20% para todas as classes. E se os tubérculos
apresentarem menos de 1/16 da superfície tomada,
a tolerância é de 30% para todas as classes.
O plantio de sementes contaminadas vai resultar
sempre na presença da doença na colheita?
Não. Batata-semente contaminada com o fungo pode
produzir tubérculos sadios, pois o desenvolvimento
da doença requer, além da presença
do fungo, um ambiente favorável ao seu desenvolvimento.
Quais são as condições
de clima e solo que favorecem o desenvolvimento da doença?
A umidade alta é fundamental para a multiplicação
do fungo e para iniciar novas lesões. Assim,
tubérculos de batata-consumo “armazenados”
em solo úmido ou de batata-semente armazenados
em armazéns e câmaras frias úmidas
têm maiores chances de desenvolver a doença.
A partir de 3°C, o fungo se multiplica com maior
intensidade à medida que a temperatura aumenta.
Condições físicas, químicas
e biológicas do solo certamente afetam a taxa
de multiplicação do fungo, mas essas interações
ainda não estão bem definidas.
Esse fungo permanece no solo por muitos anos?
Não. Se for feita rotação
de culturas, recomendada para o controle de várias
outras doenças, e se eliminar a soqueira (resteva),
o solo não é uma fonte de inóculo
significativa. Entretanto, como o fungo apresenta atividade
celulolítica, pode permanecer por algum tempo
no solo associado a restos de culturas não decompostos
e até mesmo em caixas usadas de batata-semente.
Como posso ter garantia de que a batata-semente
não está contaminada com o fungo?
Atualmente, não há tecnologia economicamente
viável para tal, principalmente devido a dificuldades
de amostragem. Assim, a princípio, toda batata-semente
pode estar contaminada. Entretanto, deve-se examinar
cuidadosamente os tubérculos após a colheita,
durante o armazenamento e na ocasião do plantio,
eliminando-se aqueles com sintomas mais severos. É
importante notar que tubérculos infectados podem
não apresentar sintomas em qualquer dessas fases,
principalmente se a batata for armazenada em câmara
fria, pois temperaturas baixas inibem o crescimento
do fungo.
Qual é o tratamento recomendado para
eliminar o fungo na batata-semente? O produto
mais indicado para tratamento de tubérculos recém
colhidos é o thiabendazole. Entretanto, várias
cepas desse fungo já adquiriram resistência
ao produto, fazendo com que o tratamento não
seja sempre eficaz. Alternativas de controle químico,
biológico e cultural vêm sendo estudados
em instituições de pesquisa em todo mundo.
Qualquer tratamento que lhe parecer suspeito deve ser
discutido com um agrônomo especializado em fitopatologia,
lembrando que o controle químico só pode
ser realizado com produtos registrados no MAPA.
Existem cultivares resistentes à sarna
prateada? Não. Algumas cultivares podem
apresentar quantidades menores de lesões muito
mais em resposta ao manejo da cultura do que devido
à resistência genética. Entretanto,
cultivares de pele lisa e escura se mostram aparentemente
mais suscetíveis por evidenciarem mais os sintomas.
Quais as medidas de controle eficazes para
se controlar a doença na produção
de batata consumo? 1. Plantar batata-semente
de boa qualidade, de preferência certificada;
2. Colher o mais rápido possível após
a morte das ramas; 3. Fazer rotação de
culturas; 4. Eliminar a soqueira. 5. Após retirada
da câmara fria, deixar os tubérculos secarem
em ambiente de baixa umidade antes do plantio.
E as medidas para a produção
de batata-semente? 1. Plantar material propagativo
de boa procedência, como as classes pré-básica
e básica; 2. Colher o mais rápido possível
após a morte das ramas, desde que a película
já esteja fixada (cerca de 5-7 dias); 3. Não
armazenar em caixas de madeira que já tenham
sido utilizadas; 4. Armazenar em balcão ou câmara
limpa e desinfestada; 5. Separar lotes diferentes de
sementes, pois a ventilação pode desalojar
esporos e conduzi-los a outros lotes; 6. Como os esporos
não germinam em umidade relativa abaixo de 90%,
manter os primeiros dias de armazenamento em ambiente
mais seco, aumentando a seguir para evitar murchamento
dos tubérculos; 7. Armazenar em câmara
fria para inibir o crescimento do fungo.
A batata-semente importada é menos contaminada
com a sarna prateada? Não. Independentemente
do país de origem, a batata-semente pode até
vir infectada, de acordo com uma tabela de tolerância
estabelecida pelo Ministério da Agricultura.
Inclusive o lote pode chegar ao Brasil muito contaminado
sem que tenha havido má fé por parte do
país exportador, já que os sintomas se
desenvolvem durante o período de transporte e
armazenamento.
Se eu desconfiar que minhas batatas-sementes
estão contaminadas com este fungo, o que faço
para ter a confirmação do diagnóstico?
1. Examinar cuidadosamente os sintomas e comparar com
relatos e ilustrações encontrados na literatura;
2. Procurar um técnico da pesquisa, do ensino
ou da extensão rural, que seja especialista em
batata; 3. Enviar amostras para uma instituição
de sua confiança para confirmação
em laboratório.
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